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Brasil ã Deriva Papo

 

Pagos pelo Estado para
conspirar contra a Nação

José Carlos de Assis

O povo brasileiro elegeu Lula mas está sendo governado por Henrique Meirelles e Joaquim Levy.

O povo brasileiro elegeu Lula mas está sendo governado por Henrique Meirelles e Joaquim Levy. Meirelles não chega a ser um burocrata puro como Levy. Foi eleito deputado por Goiás, sabe Deus com que recursos, tornando-se o primeiro presidente de banco central no Brasil que conquistara previamente um mandato popular. Claro, isso não deve ter pesado muito na escolha de Lula. O que pesou realmente é que Henrique Meirelles tinha todas as qualificações para integrar aquilo que um autor chamou de "comunidade epistêmica de banqueiros centrais e financistas", os atuais senhores do mundo.

Política monetária não é assunto fácil de ser entendido pelo grande público. Ou é complexo, por sua natureza, ou é tornado complexo pelo jogo ideológico dos financistas. Por isso, as decisões do Banco Central têm pouca visibilidade e baixa resistência na sociedade, inclusive entre os homens de negócio fora da comunidade financeira. Mesmo quando se trata de uma decisão tão obviamente prejudicial ã  comunidade de negócios e aos consumidores como o aumento da taxa de juros, ela vem embalada numa tecnicalidade sofisticada e justificada como essencial para a estabilidade econômica.

Como os banqueiros centrais e financistas ortodoxos dominaram o mundo? Em primeiro lugar, este foi um fenômeno das economias industrializadas avançadas. Só num segundo tempo chegou ao Terceiro Mundo. Embora na Ásia, em países como Índia, China e Coréia do Sul, que mais florescem economicamente nas duas últimas décadas, ainda não emplacou. A prevalência da ortodoxia monetária no mundo industrializado se deve a vários fatores, porém vou me ater aos principais: o avanço das multinacionais no mundo, a estagflação dos anos 70 e a afluência das classes médias nos países avançados.

O neoliberalismo significou uma perda de autonomia dos países em relação ã  condução de sua política econômica. Apenas dois exemplos: o governo trabalhista inglês de 1976 e o socialistas francês de 1981 chegaram a tentar enfrentar crises cambiais recorrendo a políticas progressistas, como o controle dos fluxos de capitais, mas tiveram que recuar para a ortodoxia em face das pressões do mercado e da falta de cooperação internacional. Aliás, os próprios Estados Unidos, no início dos 70, tiveram de recuar dos controles monetários impostos na década anterior.

O domínio da ortodoxia nos países avançados se configurou com a plena liberação monetária e financeira nos anos 80 e 90, que resultou da pressão combinada de banqueiros, financistas e executivos de multinacionais. Antes, com apoio das classes médias, o setor produtivo em geral se alinhava ã s políticas keynesianas de crescimento, bem estar social e pleno emprego. Com a expansão da atividade internacional das empresas produtivas, elas passaram ã  condição também de investidores líquidos mundiais, interessadas, como os financistas, na liberação completa dos mercados monetários e financeiros.

A estagflação dos anos 70 foi elemento decisivo no desapontamento das classes médias em relação ã s políticas keynesianas e na sua conversão para o neoliberalismo e a ortodoxia. Contudo, um aspecto relevante foi a progressiva expansão da assinalada comunidade epistêmica de banqueiros centrais e financistas. É formada pelos banqueiros centrais e privados, e altos funcionários financeiros do Primeiro Mundo que em geral partilham as mesmas convicções ortodoxas em economia, tendo sido formados e pós graduados nas mesmas universidades norte-americanas, frequentando os mesmos ambientes e as mesmas reuniões, aprofundando relações pessoais e ostentando um espírito de corpo supra-nacional.

Essa comunidade se encontra regularmente nas reuniões do BIS (o clube dos bancos centrais), nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, no G-7 e em outros foros internacionais. São funcionários de governos e de Estados, pagos por estes, que compartilham a visão neoliberal do mundo, num patente ato de conspiração contra a autonomia das políticas econômicas nacionais. Levy, funcionário do FMI por oito anos, e Meirelles - como Malan, Gustavo Franco, Armínio Fraga e outros antes deles -, aspiram sobretudo a se verem reconhecidos nesse clube seleto organizado pelos países ricos, no interesse dos países ricos. Quanto a nós, pagamos a conta de suas viagens internacionais.

José Carlos de Assis, é editor-chefe do site http://www.desempregozero.org.br

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