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Novo Projeto Histórico para as Maiorias

A proposta do cientista alemão Heinz Dieterich, professor da Universidade Autônoma do México, alinhado com o pensamento do norte-americano Noam Chomsky (MIT), foi tema de um seminário de três dias na UERJ em abril de 1999.  Encontra-se sumarizada no livro "O Fim do Capitalismo Global", editado pela Xamã.

O Clip Pirata divulga a palestra proferida pelo líder do MST, João Pedro Stedile , sob o título "A Natureza da Dominação", publicada pela revista Nação Brasil.

O que é construir um projeto histórico

Para esse desafio da construção de um projeto histórico das maiorias, é preciso entendê-lo como um longo processo, que vai sendo construído no desenvolvimento de três fatores complementares e que não têm prazo, porque assim são os processos históricos: a formulação teórica, a mobilização de massas que provoca a alteração na correlação de forças e a organicidade política.
Precisamos conhecer com profundidade a realidade brasileira, reconhecer quais são os problemas estruturais que afetam nosso país.

No dia seguinte a palestra foi proferida pelo cientista Heinz Dieterich, que compôs a mesa com Coronel-Aviador Vilmar Castro Toledo, do Ministério dos Transportes no governo Hugo Chávez.  Esta é a segunda vez que o Clip Pirata, acompanha palestra do Prof. Dieterich.  A anterior, em 13 de agosto de 1998, na Cândido Mendes, no Rio, para o lançamento do livro "O Fim do Capitalismo Global".

A concentração da riqueza, via propriedade e  meios de produção, fazem do Brasil o país mais desigual do mundo.

O oligopólio das empresas multinacionais que controla nosso mercado.  O MST, produz laticínios com pasteurização, nos assentamentos.  Para vender, precisa disputar a tapa com a Parmalat, Nestlé e Leite Glória, porque aqui no Brasil a Parmalat nunca recebeu tanto dinheiro como em qualquer outra parte. Em Parma, pelo grau de organização dos trabalhadores, ela se obriga a revender  com uma pequena margem de lucro.
Aqui, ela vende a R$ 0,68, mas paga ao agricultor entre R$ 0,17 e R$ 0,19.  Na época de verão, criam uma cota extra que a desobriga a comprar do agricultor.
Este se vê a vender a R$ 0,05 o litro do leite.  O pequeno agricultor tem de vender 20 litros de leite para comprar um copinho de água mineral!

Estes elementos não são obviamente novos.
Estão na filosofia e luta política de Marx e Engels;
com o grande cientista social contemporâneo, Noam Chomsky;
nas posições filosóficas anti-capitalistas mais radicais e mais progressistas do capitalismo atual do filósofo alemão
Robert Kurz;
e são a essência da proposta de Arno Peters.

O controle do capital financeiro, especulativo e desconectado de qualquer compromisso social, deixa qualquer cristão vermelho.  Eu, como sou cristão, tenho o direito de ficar vermelho.

O caráter burguês do Estado, exemplificado na preocupação com qualquer ocupaçãozinha de terra, que pode atrapalhar a democracia.  Mas que democracia é essa desse Estado? Como disse o Dieterich, já temos setores entre nós, ã  esquerda, que estão se beneficiando de privilégios que o Estado burguês garante.

O monopólio dos meios de comunicação, uma área fundamental na sociedade atual para o processo de conhecimento das massas. No Brasil, oito famílias controlam a maior parte das televisões, das rádios, dos jornais e se não atacarmos de frente esse monopólio será impossível construir um projeto histórico popular.

Noam Chomsky

O colonialismo cultural que é a herança de 500 anos que atingiu nossas elites e faz com que elas se comportem igual a macacos; tudo o que as elites das metrópoles fazem eles copiam aqui, sem sequer entender. O problema é que esse colonialismo cultural é imposto de outra forma, também sobre os pobres - e o povo tende a repetir as elites. Daí as altas audiências dos Ratinhos e Faustões da vida.

Em um projeto histórico é preciso enfrentar esse problema, porque a cultura é que dá identidade ao povo e que pode inclusive contribuir para um processo de transformação mais radical.

Estamos vivendo uma crise ética, uma crise de valores.  O capitalismo ao longo do tempo, e agora com o neoliberalismo, projeta permanentemente na nossa sociedade antivalores que são o individualismo, o egoísmo e o consumismo.  Ora, nenhuma sociedade na história se desenvolveu economicamente, socialmente, espiritualmente, baseada nesses antivalores.

O individualismo é justamente a antítese do social; o consumismo é a antítese da igualdade, porque se tenho enorme capacidade de consumo, alguém vai ter que deixar de consumir.

De maneira que um novo projeto histórico torna imprescindível a luta ideológica, permanente, visando recuperar os valores históricos da Humanidade que estão sintetizados no espírtio socialista, que é, na prática, construir uma sociedade baseada na igualdade social, na justiça social e fundamentalmente no valor da solidariedade e não na disputa como é a nossa.

O problema do latifúndio e da concentração da terra, pois como sabem, 1% dos proprietários no Brasil controlam 51% de todas as terras.
O Brasil é o segundo país do mundo de maior concentração, nós só perdemos para o Paraguai.  Como lá, os maiores proprietários são brasileiros, "a taça é nossa". Para uma distribuição justa de terras o índice se aproximaria de 0,001.

O Maranhão é o local de maior concentração de terras no mundo.
Lá, o índice é de 0,92.
Quando chega a 1, significa que um único proprietário é dono de todas as terras.

O intercâmbio de informações para um Novo Projeto Histórico, dependerá da Internet, que é o único meio de comunicação mundial, economicamente acessível e sem censuras políticas.

Heinz Dieterich

Em um projeto histórico, é preciso que as forças populares construam propostas que resolvam de fato esses problemas estruturais.
O problema do desemprego está vinculado a esses problemas estruturais, faz parte da estruturação desse novo modelo econômico que marginaliza os setores produtivos.  Podem fazer reunião com FHC, com ACM, com Marco Maciel, podem fazer o que quiserem.  Não vão resolver o problema na base da negociação, porque esse é um problema estrutural.

Daí a necessidade de um conhecimento profundo de nossa realidade, através do debate sobre o futuro da nossa sociedade. A mobilização das massas em torno de um projeto histórico virá concomitantemente, não só para se conseguir conquistas imediatas de reivindicações, mas para alterar a correlação de forças na sociedade.  Dê a oportunidade de perguntar ao povo: O que você acha que é a solução?  Tentando convencê-lo de que para a solução não basta ir ã  igreja, mas é preciso transformar o mundo, como eu aprendi na igreja.

Estas são algumas reflexões em torno da necessidade de construir o projeto histórico das maiorias, que se contraponha ao projeto que há 500 anos as elites vêm impondo ao nosso povo.

 

A África também precisa da Internet. Não como objeto de consumo, mas de produção e de desenvolvimento. De um turismo de alto valor apoiado na difusão de informação via Internet. De uma agricultura orgânica, ao mesmo tempo de exportação e de subsistência, apoiada nas informações de insumos e mercados. De uma nova indústria integrada ã s redes mundiais de produção, administradas por meio da Internet. De um sistema de saúde apoiado na combinação do atendimento primário pessoal com a informação especializada fornecida ã  distãncia e em tempo real. E, acima de tudo, de um sistema de educação e de formação profissional capaz de ensinar e não apenas de armazenar crianças, apoiado no treinamento e reciclagem contínua dos professores, com um sistema de orientação acadêmica centrada na Internet.

                 Manuel Castells no Caderno mais! da Folha de S.Paulo

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