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Brasil ã Deriva Papo

 

Matéria publicada no ClipPirata, número 4, em maio de 2000

Seattle explodiu "armação" global

Globalização com perda de soberania e a ética descartável na política.

 Quantos brasileiros sabem que desde 1995 em Paris, 29 países membros da OCDE e cinco países observadores, inclusive o Brasil, elaboravam secretamente um acordo internacional?

O que é o A.M.I.?
O que é o Acordo Multilateral de Investimentos?

Uma boa definição foi dada pelo diretor-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Renato Ruggiero: "Com este documento nós escrevemos a Constituição de uma economia mundial unificada".

Seattle explodiu o AMI

O documento vazou no início de 1997.  Após consultas formais, os movimentos de base de todos os continentes se reuniram em Genebra, em fevereiro de 1998 para lançar um manifesto de âmbito mundial, de resistência ao AMI.

No mesmo mês, Lori M. Wallach, da Public Citizen, denunciou-o em artigo no Le Monde Diplomatique, com o título "O novo manifesto do Capitalismo Mundial". Entre nós, a profa. Maria da Conceição Tavares expôs o AMI em artigo na Folha de S.Paulo, em 1º de março de 1998.

O AMI , segundo o  sociólogo Boaventura de Souza Santos, é "o fim de qualquer idéia de desenvovimento nacional e o confisco total da possibilidade de deliberação democrática no domínio da política econômica".

Desde então, está acontecendo uma mobilização sem precedentes da sociedade civil, com a participação dos movimentos sociais, governos e parlamentos. 

Os Bastidores

O Clip Pirata mostra um dos biombos do AMI, reproduzindo o excelente artigo do então editor internacional do The New York Times, Andrew Rosenthal, publicado no Estado de S.Paulo.  A cópia que recebemos, trazia as impressões do missivista: "O que significa isto? Há muito tempo não lia algo tão impressionante"..

Ao arrepio do nosso missivista, juntou-se, um ano depois, a irritação de uma amiga  de bordo, jornalista experimentada, que em dado momento desabafou:
"Pára com Seattle que já está enchendo". Hoje, em Quebec com a ALCA, em Gotemburgo com o FMI ou em Barcelona com o recuo histórico do que seria a Reunião 2001 do Banco Mundial, em Gênova com o G-8, e finalmente o monumental fracasso na OMC, em Cancún, fica a certeza de que dávamos a importância correta ao  início de uma nova era na mobilização global pelos destinos do Mundo. Atualizando, a invasão do Iraque em 2003 revelou os extertores do brutal sistema que está por trás disso.
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O PNAC-Project for a New American Century (1997) que referencia um evento catastrófico e catalisador tem ecos de uma declaração semelhante de David Rockefeller ao United Nations Business Council em 1994:

"Estamos ã  beira de uma transformação global. Tudo o que precisamos é a crise global correta e as nações aceitarão a Nova Ordem Mundial".
Michel Chossudovsky
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Nova Ordem Mundial

NYT/Andrew Rosenthal
7 de maio de 1998

Os EUA, seus aliados democráticos e as principais ditaduras estão estabelecendo, rapidamente, uma nova ordem mundial - que ainda não está concluída, mas já é parte central da vida e dos valores internacionais.
A ideologia, poderes, gratificações e punições dessa ordem estão suplementando os que prevaleceram na área internacional até 1994, quando o presidente Clinton aderiu ã  nova ordem.
Se isso continuar, esse será o novo conceito internacional mais importante desde o fim da 2ª Guerra Mundial.

O AMI  trata basicamente de proteção, salvaguarda, livre circulação, valorização e não intervenção nacional, sobre toda a riqueza financeira de propriedade de pessoas físicas ou jurídicas externas, detentoras de ativos que estejam em determinado país.

A nova ordem foi criada sem a aprovação dos Parlamentos e sem a assinatura de tratados.  Mas, a cada semana, ã s vezes diariamente, os princípios subjacentes são revelados, na prática.
A descrição seguinte dos objetivos e metas da nova ordem é tão diferente dos princípios até recentemente assumidos pelo Ocidente, embora nem sempre tenham sido seguidos, que pode até parecer uma sátira.  Mas não é.
A mudança fundamental, exigida pelas ditaduras e admitida, na prática, pelas democracias, está no fato de que as políticas internas de perseguição pelos governantes, e os direitos dos governados, não são uma consideração moral e econômica prioritária do mundo.

De acordo com esses valores, as democracias podem protestar contra alguns atos internos das ditaduras - torturas, e coisas assim.  Mas devem fazer isso discretamente, sem permitir que esses atos, que frequentemente envolvem interesses de segurança, prejudiquem os novos valores preponderantes dos líderes democráticos.
Esses valores são o comércio e o investimento nas ditaduras, que, no entender das democracias, são importantes para as suas economias nacionais.  Tais investimentos ã s vezes são chamados de empregos, mas usualmente são interpretados como lucros empresariais.
Em troca, as ditaduras permitem que as democracias invistam em - e comerciem com - empresas que os capitalistas considerem lucrativas para seu poder comercial, embora não necessariamente para seus empregados ou ã  saúde econômica nacional dos respectivos países.

O AMI entende por investimento, todo tipo de bens tangíveis ou intangíveis, móveis ou imóveis, propriedades (territoriais, águas internas e mares territoriais) e outros interesses de uma empresa (que poderiam ser, patentes sobre a vida, privatização de plantas, animais e partes humanas) que lhe permitam participar  na renda ou nas utilidades,  direitos de propriedade intelectual, direitos  emanados de contratos  reais como de concessão e licenças, direitos conferidos pela lei de um país e qualquer promessa de capital ou bens para o território de outra das partes do acordo, na  perspectiva de obtenção do lucro.

Se as ditaduras, ou governos autoritários, como são chamados alguns, por eufemismo, deparam com o colapso de sua economia, causado pela corrupção que é genérica em tais sociedades, o FMI e as democracias individualmente apressam-se em fornecer dinheiro para o resgate.

Substitua "burguesia" por "globalização" e eis o mundo atual descrito por Marx.

Alain Tourraine

A justificativa apresentada é que, de outra forma, as economias das ditaduras se desentegrariam, e isso provocaria uma revolução.  Contudo, os povos desses países talvez estejam ansiando por uma revolução.  Obviamente, não é possível deixar que isso aconteça, e salvar as ditaduras é resgatar o dinheiro investido por pessoas que vivem nas democracias.

Os EUA passam a vender material estratégico ã  China, oferecendo, como vantagem extra, uma visita do presidente dos EUA para honrar os líderes comunistas e expandir seu poder e seu prazo de vida política.  Os dissidentes religiosos e políticos dos parceiros totalitários da nova ordem mundial vão para prisão, ou são executados, ou, muitas vezes, as duas coisas.
A imprensa das democracias passa a publicar relatos sobre o crescimento da nova ordem.  Outros cidadãos das democracias começam a dizer que os custos dos produtos baixaram, e acham isso muito bom.
Os americanos e europeus podem chegar a objetar por razões políticas ou morais, ou porque, no fim, a nova ordem mundial poderá custar seus empregos.  Mas eles nunca poderão dizer que não sabiam disso.

Documento do MODECON-Movimento Em Defesa da Economia Nacional, explicitava que no Brasil, o governo FHC vem implementando políticas de desregulamentação e privatização que se antecipam ã  assinatura do AMI.
Caso o Brasil e os demais países da América Latina venham a assinar esse Acordo, teriam dado o passo decisivo que leva da dependência ã  submissão colonial.
Está claro que os acontecimentos de Seattle foram consequentes a
um nível de organização mundial, somente possivel via Internet. Ao tornar pública a agenda proposta para a fracassada Rodada do Milênio no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), refletiram na realidade, uma acumulação contra-hegemônica para o que se desenvolve sob o manto neoliberal dos rentistas e dos organismos multilaterais.
Para Edgard Morin, vivemos "a segunda globalização, das ONGs, pós-Seattle".

O que fazer?

Resistência é a palavra de ordem. Os compromissos com a ditadura dos negócios, pela monótona incompreensão da diversidade, está instalando uma verdadeira guerra de guerrilha eletrônica.
Processos judiciais enriquecerão os escritórios de advocacia, a especialização dos hackers sobre os hackers, enfim, está ficando claro um esforço para o retardamento ao avanço sobre o lado mais generoso da disponibilidade tecnológica, a disseminação livre da informação, do conhecimento e da cultura, no incremento das relações pessoais e de grupos em nível planetário.

Ratifica o pensamento de Roger Garraudy que disse há quase 20 anos:" ... o diálogo das civilizações tornou-se uma necessidade urgente e irrecusável.
Uma questão de sobrevivência.  A quota de advertência foi atingida, talvez até ultrapassada".
Meia dúzia de bilionários mercadologicamente idiotizados, sustentados por uma mega-estrutura de poder econômico e militar, ambos espiritualmente destrutivos, despossuídos de qualquer proposta que eleve coletivamente a humanidade, não irão, em prazo algum, conquistar corações e mentes.

O relato de João Pedro Stedile , apresenta uma possibilidade entre nós, para reverter este quadro. A República Bolivariana da Venezuela tomou a dianteira. Em 2002 no Brasil, o PT com Lula, troca um curtido projeto de sociedade por um estranho e mal engendrado projeto de poder. Em 2006, os ventos dos Andes sopram novamente com Evo Morales, o Aymará, na Bolívia.

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