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Os Sertões

Mauro Rosso

Os sertões oferece a oportunidade de ter-se uma visão clara de questões de origens sociais: diz muito de um drama da história brasileira, e também de dramas dos tempos atuais.

A recente encenação pelo Grupo Oficina Uzyna Uzona, com absoluto sucesso (e olhe que eram quase cinco horas de duração!) de "Os sertões - o homem - parte 1", da lavra criativa (e provocativa) de José Celso Martinez Correa (aliado a Tommy Pietra e Catherine Hirsch) - que integra uma 'trilogia', uma triplamente corajosa (típica de Zé Celso) adaptação para o teatro do livro de Euclides da Cunha - remete a uma das obras referenciais, canônicas da cultura brasileira , publicada em 2 dezembro de 1902, tornada de imediato um bestseller. É tempo portanto de reverenciá-la.....

"Só as obras bem escritas hão de passar ã  posteridade": palavras lapidares escritas por um naturalista, o conde de Buffon (mais conhecido por uma frase que se tornou famosa : "le style c'est l'homme même"), ao tomar posse na Academia Francesa, em 1753.

Ninguém discute (e nem poderia): Os sertões, que completou exatos 100 anos de publicação em dezembro de 2002, estão nesse caso. Até porque a obra-prima de Euclides da Cunha exibe uma espantosa atualidade.

Entre outros aspectos, a permanência, a atualidade e modernidade de Os sertões devem-se ã  veemência de sua denúncia, ã  sua pertinência histórica e ã  sua excelência literária, o que o sustenta como um marco fundamental da cultura brasileira , obra de múltiplas leituras - entre elas uma reinterpretação do Brasil interiorano. Os sertões deve ser entendido como verdadeiro fenômeno cultural, inserido no cenário de constituição e transformação do pensamento social sobre o Brasil. Euclides da Cunha mostra-se sempre um intelectual preocupado em "pensar" o Brasil dentro de um momento histórico e complexo processo de formação de uma sociedade que fosse capaz de integrar os diversos grupos humanos (litoral e sertão) na definição da identidade nacional. Com toda justiça passou a ser reverenciado como o primeiro autor a escrever um "clássico" no Brasil, uma obra de peso, científica, densa, consistente, vigorosa, que até então só podia ser encontrada em autores e livros estrangeiros. E ter um "clássico nacional" adquiria valor especial: igualava-nos ã s nações civilizadas do mundo moderno da época.

O que fez, e faz, Os sertões tão célebre? Primeiro, seu caráter profético, de descobertas de verdades fundamentais para o destino do país, como "a tese dos dois brasis", a necessidade de olhar para o interior, para "o Brasil real". Os sertões não podia ser comparado a nenhum outro livro: era "uma bíblia" permanentemente aberta para interpretações, vindas de diversas áreas: literatura, história, geografia, geologia, política, biografia, matemática, engenharia.

Na consagração de Os sertões, menciona-se seu aspecto "fundador" - por inovar, por renovar, por revolucionar.... por tornar-se, enfim, um clássico, em meio a elementos histórico-político-sociológicos e literário-culturais específicos de um período de fortes mudanças no país, não apenas pela substituição da monarquia pela república, que seria, aliás, interpretado como um dos motivadores da "rebelião de Canudos".

A literatura sertaneja constituída na virada do século retratava o sertão como o lugar da pureza e da autenticidade, o"lugar da nacionalidade autêntica". O livro de Euclides veio subverter toda essa visão "pitoresca, sentimental e jocosa'" do homem rural, rejeitando toda "banalidade, pretencioso exotismo, ingenuidade" - e mostrando o sertanejo como "antes de tudo um forte... a rocha viva de nossa nacionalidade".(vale notar que essa visão 'dicotômica' do sertanejo, ora como um ingênuo, frágil ora como um forte , veio na década de 1910 a permear a interpretação de Monteiro Lobato com relação ao Jeca Tatu, desenhado sob três perfis distintos ao longo de sua 'trajetória literária'). Euclides também se distinguiu dos demais escritores da "voga sertaneja'" por vir apoiado em discurso científico, novidade na época, que deu ao livro 'autoridade' superior (ao mesmo tempo "legitimadora" dos demais obras sertanejas) e forneceu condições para que idéias e conceitos emitidos apenas como impressão ou opinião ganhassem estatuto de fatos 'cientificamente' comprovados. O sertão tornou-se via privilegiada para uma leitura do Brasil tanto do ponto de vista literário e artístico quanto da tradição de estudos de etnografia e folclore: na esteira dessa via vieram o ciclo do romance regionalista da década de 1930, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, até mesmo Glauber Rocha no cinema e Mestre Vitalino na arte popular artesanal.

As interpretações da obra de Euclides enfatizam seu cientificismo - de resto, comum a toda sua geração, a "geração de 1870", que aderiu em massa ao empirismo (repudiando o espiritualismo da fase romântica) - que era emprestado do 'darwinismo social' (gerado pela publicação do livro A origem das espécies, de Charles Darwin em 1859), que propugnava a tese de superioridade de raça, o conceito de raça ultrapassando o campo da biologia, estendendo-se ã  cultura e ã  política, desvirtuando ou "adaptando" as teorias darwinistas no que fosse mais conveniente, utilizando o que combinava e descartando o que era problemático para a construção de um argumento racial no país. A vertente cientificista buscava encontrar as leis que organizavam a sociedade brasileira, que determinavam a formação do gênio, do espírito e do caráter do povo. Ao lado da influência de Comte, o evolucionismo de Darwin e de Spencer dispôs Euclides a aceitar, com excessiva confiança, as "leis" sobre os caracteres morais das raças que tanto acabariam pesando na elaboração de Os sertões.

De outro lado, por volta de 1894, Euclides já se entregara com fervor aos estudos brasileiros, passando da geologia ã  botânica, da toponímia ã  etnologia: o acervo de conhecimentos que então carreou formaria a base científica de Os sertões. Foram anos de estudo intenso e variado: ao lado das ciências naturais, da geografia e história brasileiras, Euclides embebia-se dos clássicos portugueses cuja sintaxe e vocabulário deixariam evidentes sinais em Os sertões.

Foram também anos de interesse pelas ideologias renovadoras que já encontravam eco em um Brasil em fase inicial de industrialização. Sabe-se que Euclides se achegou ao grupo socialista de São José do Rio Pardo, mas teria sido antes um observador simpático do que um militante convicto: o que importa, porém, é a assimilação de critérios progressistas na gênese de sua obra literária - já denotado em Os sertões - principalmente nos últimos escritos, dentre os quais é texto exemplar o artigo "Um velho problema", de 1904, página candente de "repúdio ã  exploração da classe operária".

"Os sertões é o clássico do ensaio de ciências humanas no Brasil", sentenciou o crítico literário e ensaísta José Guilherme Merquior. Um livro meio científico, meio literário que abordou "alguns temas atualíssimos da pesquisa antropológica": um deles, da mística do advento do Reino de Deus por intermédio do messias Conselheiro - aí implícito o tema do messianismo e do sebastianismo; outro, "o fato de Euclides da Cunha ter sentido muito lucidamente o problema da definição sociológica de certas formas de anormalidade mental", escreveu Merquior. Ao reconhecer o entrosamento dos aspectos irracionais da personalidade do "profeta de Canudos" com as aspirações e carências de uma comunidade rústica, sufocada por flagelos naturais e indiferença das camadas dominantes, Euclides "intuiu brilhantemente a natureza psicossocial da noção de loucura, dessa "zona mental onde se acotovelam gênios e degenerados". Fulgurante pela transbordante energia poética de seu estilo narrativo, Os sertões sobrevive ad eternum também por seus inovadores vislumbres sociológicos - inéditos e "revolucionários" para a época, absolutamente válidos e instigantes hoje.

No lastro da posteridade, Os sertões - simbiose entre jornalismo, literatura, história, ensaio, ciência, geografia, sociologia, antropologia, geologia - é obra de múltiplos atributos: factualidade, perenidade, atualidade.

Factualidade, por ser antes de tudo de uma obra jornalística (mas tão grandiosa que abriga outras características), livro de um jornalista, "o maior feito jornalístico das letras brasileiras ou o maior feito literário do jornalismo brasileiro", ao retratar um dos episódios mais marcantes da história republicana, registrar o conflito "elite x povo", "sertão x litoral", "monarquia x república", e sobretudo expor condições e situações sociais e culturais de contingentes populacionais, obra que é "uma epifania de brasilidade, uma fala do Brasil".

Perenidade, em sendo um cânone literário, por constituir-se um dos textos básicos de "história e construção do pensamento brasileiro", uma das obras fundadoras da nacionalidade, "a mais representativa da cultura brasileira de todas as épocas", capaz de expressar importantes dilemas nacionais que extrapolam a própria narrativa da tragédia de Canudos; obra incluída entre os textos fundadores, fontes da historiografia literária : Euclides, ao lado de Manuel Bonfim e Gilberto Freyre, como um dos pioneiros grandes intérpretes do Brasil.

Atualidade, por ser inovadora de uma literatura-denúncia, por "chamar a atenção para os excluídos", denunciar uma questão social, expor mazelas e injustiças, a miséria, a fome, registrar "tendências conflituosas da sociedade brasileira", enfocar "um Brasil injusto e dividido", anotar a religiosidade, a crendice, e de certa forma o misticismo - porque, a par do fanatismo religioso, a essência de Canudos é a questão social; atual por também tocar no messianismo - algo sempre latente no cenário político brasileiro (a eterna expectativa pelo "pai da Pátria", pelo "salvador da Pátria"). Obra, enfim, de reflexão profunda sobre o Brasil - sob o lema sentenciado pelo próprio Euclides: "estamos condenados ã  civilização; ou progredimos ou desaparecemos".

Os sertões oferece a oportunidade de, a partir de Canudos, ter-se uma visão clara de questões de origens sociais: diz muito de um drama da história brasileira, e também de dramas dos tempos atuais.

Texto originalmente publicado na Folha de S.Paulo

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