1a. Página Opinião Em Tempo
Economia Mundo História
Brasil ã Deriva Papo

O que os meios de manipulação de massa não divulgam

 

A estratégia do Gás na Bolívia

Este texto foi editado em 2001
O engenheiro pós-graduado em Física, professor e jornalista  José Walter Bautista Vidal e o sociólogo pós-doutorado  na École Pratique de Hautes Etudes, na França, Gilberto Felisberto Vasconcellos escreveram o livro "Petrobrás, um clarão na história", pela Editora Sol Brasil, de Brasília.

Demanda inventada e superdimensionada fará o país queimar gás poluente; e mais; a torneira fica lá fora; e mais: multinacionais passam a ter o domínio das águas dos brasileiros..

No governo FHC, as empresas estrangeiras que exploram o gás na Bolívia obrigaram a Petrobrás a construir o gasoduto para o Brasil, pois precisavam de mercado consumidor para seu produto. Como o contrato firmado para importação do gás era do tipo take or pay (mesmo importando menos, o preço é único), durante cinco anos o Brasil importou 18 milhões de metros cúbicos e pagou por 25 milhões. 'Foi o pior contrato da história do Brasil em todos os setores'."
                                       
Fernando Leite Siqueira, diretor de Comunicações da Aepet

Em 1983, a Shell descobriu o Campo de Camisea, no Peru, com reserva estimada de 400 bilhões de metros cúbicos de gás. Mas, atravessar a cordilheira dos Andes e exportá-lo na forma de gás natural liquefeito tornava o empreendimento inviável.
Um caminho seria exportá-lo para São Paulo (cerca da 4.000 km) e outros estados brasileiros. Mas era antieconômico. Para Porto Velho e Manaus, também. Nem a demanda justificaria.

As privatizações serial-killer
Em 1990, na Bolívia, com reservas de gás estimadas em 200 bilhões de metros cúbicos, começou-se o processo de privatizações, que culminou em 1995: a Amoco (British Petroleum-Amoco-Atlantic), a Shell e a Exxon compraram as reservas.

A Argentina, que possui estimados 600 bilhões de metros cúbicos de gás (Neuquen e Terra do Fogo), privatizou a Gás Del Estado em 1992. Entre 1978 e 1983, houve crescimento espetacular na indústria petrolífera Argentina. Coincidiu com a crise do petróleo e a falta de reservas nos países do G7, cujas corporações formam o cartel das Sete Irmãs (hoje apenas quatro, após fusões), além da Agip (italiana) e da Total e ELF (francesas). Assim, houve crescente pressão sobre Yacimientos Petrolíferos, da Argentina (YPF), e Gás Del Estado (desmembrada da YPF).

O governo argentino iniciou perniciosa política de preços, criando para as duas empresas sérios problemas financeiros. Enquanto isso, a mídia desencadeava campanha sobre a "ineficiência das estatais".

No Brasil, a campanha começou no governo Sarney a manipulação da estrutura de preços contra a Petrobrás, a favor do cartel das Cinco Irmãs.

A desestabilização articulada via preços
Diz o engenheiro argentino Victor Bravo:
"O estranho é que as causas dos desequilíbrios eram perfeitamente corrigíveis, mas os diagnósticos não as contemplavam."

Eram preços internos muito favoráveis aos grandes consumidores; relação inadequada dos preços de petróleo e gás; contratos privados em que a YPF comprava gás de produtores privados mais caro do que revendia para Gás Del Estado, até cinco vezes mais caro do que o gás das próprias reservas da YPF; compressão das tarifas com crescente carga de impostos; e leonino contrato com o consórcio internacional Cogasco para a construção e operação do gasoduto Centro-Oeste, com condições péssimas para a Gas Del Estado.

Assim, Gas Del Estado, "empresa com balanços positivos, com os melhores profissionais do estado, com muito poucos acidentes em comparação internacional, com boa eficiência e ótimas perspectivas de futuro", foi privatizada. As reservas estimadas na época eram de 250 milhões de metros cúbicos de petróleo e 540 bilhões de metros cúbicos de gás.

A auditora americana Gaffney Cline "achatou" para venda as reservas de óleo em 30%. Apesar da política de preços perniciosa imposta pelo governo, a Gas Del Estado apresentava indicadores de eficiência superiores aos da British Gas e Gas de France. Privatizadas YPF e Gas Del Estado, petróleo e gás argentinos passaram ã s mãos da Shell, Repsol, Exxon, British Gas e outras empresas privadas, além da francesa Total, já situada no país. Nos últimos dois anos, foram acrescentados 700 bilhões de metros cúbicos na Bolívia dos quais 300 bilhões descobertos pela Braspetro-Petrobrás.

Existem portanto na Bolívia, Argentina e Peru cerca de 1,9 trilhão de metros cúbicos de gás: 600 bilhões na Argentina, 400 bilhões no Peru e 900 bilhões na Bolívia.
Com um único cliente, o Brasil.

Começaram então as pressões para construção do gasoduto Bolívia-Brasil, de Santa Cruz de la Sierra até Porto Alegre, via Campinas (cerca de 3.500 km). Não era projeto comercialmente viável, pois a taxa interna de retorno era da ordem de 10% ao ano para um custo de investimento de 12% ao ano. As multinacionais, portanto, não fariam o investimento.

Como começaram as pressões sobre o Brasil?
No governo Collor, fez-se o levantamento superestimado de demanda e procurou-se atrair empresários incautos para "novo e não poluente combustível": o gás da Bolívia. Prometiam vender a preços mais atraentes do que os do óleo combustível. Todos fariam "bons negócios".

Ingênuos e cooptados, esses empresários saíram a fazer lobby, defendendo a idéia na mídia e acusando a Petrobrás de ser contra o uso do gás. Usavam argumentos do tipo:

"A média mundial de utilização do gás é 20%, no Brasil é só 2,5%. Ora, cada país usa o energético que tem. O Brasil tem potencial hídrico, a Argentina não tem. Mas tem gás. Que use gás. A China e os EUA têm carvão mineral, terrível poluidor. Usam até hoje, desrespeitando acordos internacionais de proteção do meio ambiente.

"Consultorias funcionam como braços do sistema financeiro internacional. Os "vendedores de conselhos", são recrutados em universidades americanas e outras engajadas nas teses neoliberais. Já sabem mais sobre a Petrobrás do que maioria de seus funcionários. E aconselham ã  estatal um modelo "rejeitado por empresas como a IBM, a British Petroleum e a Shell Oil por sua inadequação e pífios resultados"."
                  
Argemiro Pertence, diretor da Aepet-Associação dos Engenheiros da Petrobrás

A falsa demanda criada no governo FHC
O governo FHC contratou consórcio internacional, Boz Allen, para o planejamento estratégico do Brasil até 2020. As diretrizes do país serão dadas pelo conglomerado Booz Allen, Shell, Monsanto, Keidaren, British Petroleum e outras empresas.
A Coopers na Librand já se encarregava do planejamento energético. Disso resultou o abandono das hidrelétricas (mais de 90% do potencial instalado brasileiro), em favor de termelétricas a gás.

Criou-se artificialmente o mercado para o gás (sem mercado) em torno do Brasil, já nas mãos dessas corporações.

A pressão aumentou. O governo Itamar Franco (1992-1994), sob pesada influência de seu então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, assinou o contrato, via Petrobrás, com a YPF Boliviana.

Levantamento da demanda industrial no governo Collor (1990-1992) chegou ao valor irreal de 60 milhões de metros cúbicos por dia. Demanda mentirosa. Em Santa Catarina, por exemplo, foi estimada em 1,6 milhão de metros cúbicos por dia. Visitamos os potenciais consumidores e, com seus técnicos, constatamos que o máximo de consumo, nos próximos 20 anos, não chegaria a 25% do "levantado".

Os empresários cooptados fizeram lobby, mas quem vai usar o gás são as usinas termelétricas recém-contratadas pelo governo FHC, única forma de "gerar" consumo para o gás controlado pelas multinacionais.

Desastre estratégico: torneira fora do país

Vamos sair de uma matriz energética limpa, com 95% de geração hidrelétrica, para geração termelétrica que queima combustível fóssil, gás poluidor, emissor de CO2 (gás carbônico).

Vamos sair da independência energética para ficarmos dependente de um monopólio (ninguém fará um segundo gasoduto para concorrer), controlado por multinacionais, só visando seus lucros. Um desastre estratégico, pois a torneira ficará fora do país.

Optou-se por combustível pago em dólares que, com estudo sério, não estaria entre as três melhores opções econômicas, sem considerar seu déficit em divisas. A primeira opção, limpa, barata e longe de estar exaurida, seria a geração hidrelétrica; a segunda, carvão vegetal ou gás de madeira, limpos, extensivos e de grande potencial para redução de custos; e a terceira, o óleo combustível nacional.

Como único consumidor possível, o Brasil poderia usar seu poder de barganha e exigir a entrega do gás aqui, nos locais de consumo, e não obrigar a Petrobrás a deslocar investimentos altamente lucrativos da bacia de Campos para favorecer interesses de multinacionais.

O retorno dos investimentos em Campos é da ordem de 80% ao ano, pago em reais, gera emprego, tecnologia e riqueza para o país. No entanto, estamos aplicando num gasoduto inviável economicamente para depois repassá-lo ã s multinacionais a preços de moedas podres financiadas pelo BNDES..

O custo de geração da energia termelétrica a gás fica três vezes mais caro que o preço atual da energia gerada via hidrelétrica. Para viabilizar o projeto, as multinacionais estão forçando a compra das nossas distribuidoras de energia elétrica e respectivas usinas geradoras (Furnas, Cemig, Cesp, Cpfl, Cetel, Cetesp, Eletropaulo e outras), com objetivo de cartelizar o setor e elevar as tarifas a seu gosto, como já vêm fazendo. Acreditar que a Aneel, agência reguladora criada e controlada pelo governo, vai regular algo é acreditar em Papai Noel. Ao contrário, veio para facilitar a entrega.

Agora gás, amanhã a água
O cartel que se formou de multinacionais passa a ter o domínio dos rios brasileiros. Há profunda preocupação mundial com a crescente cartelização da água doce, que vem escasseando em toda a parte. Pense na água para a agricultura e o consumo humano sob o domínio de um cartel de multinacionais.

A questão do gás foi uma das cinco mudanças principais da ordem constitucional econômica que visava ao desmantelamento da soberania nacional.

Com 70% do controle de nossa economia em mãos de não-residentes poderosos, perder o controle da energia e da água pode não ser o fim do mundo, mas pode significar o fim do Brasil.
                                                                       
Leia mais em Opinião em Foco

A Petrobrás e os interesses estratégicos do Brasil

2006 em espaços alternativos ou 2007 convulsionado

Topo!